Intervenções Urbanas

Nós vivemos falando de intervenções urbanas, mas nos demos conta de que já exemplificamos muito as intervenções, mas nunca fizemos um post falando realmente delas. Então vamos falar um pouquinho do que são e como surgiram!

Intervenção urbana de Eduardo Srur. (Foto: http://super.abril.com.br/blogs/ideias-verdes/tag/eduardo-srur/)

Primeiramente, intervenção urbana é o termo utilizado para designar os movimentos artísticos relacionados às intervenções visuais realizadas em espaços públicos. Ela é voltada para uma experiência estética, buscando mudar a relação que se possui cotidianamente com a cidade, produzindo formas diferentes de se enxergar o espaço urbano.

“O que hoje chamamos de intervenção urbana evolve um pouco da intensa energia comunitária que floresceu nos anos de chumbo [período mais repressivo da ditadura militar no Brasil]. Os trabalhos dos artistas contemporâneos, porém, buscam uma religação afetiva com os espaços degradados ou abandonados da cidade, com o que foi expulso ou esquecido na afirmação dos novos centros. Por meio do uso de práticas que se confundem com as da sinalização urbana, da publicidade popular, dos movimentos de massa ou das tarefas cotidianas, esses artistas pretendem abrir na paisagem pequenas trilhas que permitam escoar e dissolver o insuportável peso de um presente cada vez mais opaco e complexo.” (Maria Angélica Melendi)

Intervenção por Banksy. (Foto: http://www.saopaulotimes.com.br/sp/banksy-famoso-por-ser-anonimo/)

“Houve um tempo em que o termo intervenção era privilégio legítimo de militares, estrategistas ou planejadores e o urbano adjetivava o futuro ainda longínquo para a maioria da população mundial. Se a intervenção urbana foi, no século XX, predominantemente heterônoma, uma ordem vinda de cima, a partir da segunda metade deste mesmo século, os artistas começaram a interceptar tal heteronomia e a apropriar-se da possibilidade de intervir no mundo real e na cultura, irreversivelmente urbanos. Neste curto intervalo histórico, diversas iniciativas artísticas realizadas fora dos museus e galerias, dos palcos e dos pedestais buscaram novas relações socioespaciais e consolidaram a idéia de intervenção urbana em dois rumos: como estratégia de transformação física (monumentos também heterônomos) ou como tática de uso da cidade e da cultura (interferências efêmeras, imagéticas, móveis, colaborativas). Atuando através de forças imprevistas, de conflitos de tradução e da expansão das noções e hierarquias tradicionais do espaço, tais práticas (a deriva, o minimalismo, a land art, o building cut, o happenning, o site-specific, etc.) desmontaram de uma vez por todas a ideia clássica de arte baseada no consenso e possibilitaram a emergência complexa e indelével da noção de público. E se hoje a expressão intervenção urbana soa como lugar comum até no mais remoto rincão sonhado pelos landartistas ­– quando o território está globalmente esquadrinhado pelos satélites, parcelado pelos interesses imobiliários e maculado pela latinha de Coca-Cola abandonada – o espaço público continua a ser uma das promessas não cumpridas da cidade. Público que, obviamente, não se refere apenas à ideia de audiência ou espectadores, mas a um conjunto de redes e espaços de participação e autonomia que conformam o território “de todos” na cidade, na diversidade dos seus aspectos sensíveis. Uma breve e provisória taxonomia do espaço público no contexto da arte atual delineia, em maior ou menor grau, o desejo – poético, político, coreográfico – de propor contribuições para futuros renovados que permitam que o senso de coletividade e a prática espacial crítica exerçam-se na cidade: (1) as experiências artísticas construídas sob a ideia do espaço público como mera localização testemunham o esvaziamento de suas redes territoriais, quando a cidade é utilizada apenas como lugar de exibição ou palco especial; (2) o espaço público entendido como processo e negociação retoma a esfera pública com seus conflitos e diversas vozes, tentando ver emergir discursos e possibilidades; (3) o espaço público como lugar de estudo corográfico tenta se aproximar das investigações geográficas e geopolíticas, repensando a arte através das experiências dos territórios de intolerância mundial; (4) o espaço público como prática de mapeamento performativo apresenta a ideia do mapa pessoal como escritura crítica de navegação da cidade; (5) o espaço público virtual lida com a emergência dos aparatos globais de medição, comunicação e monitoração do espaço, num alargamento redundante da esfera pública..” (Renata Marquez e Wellington Cançado)

Uma das intervenções do 3Nós3. (Foto: http://www.canalcontemporaneo.art.br/e-nformes.php?codigo=3423)

As intervenções urbanas que se propõem a extrapolar a experimentação estética numa união entre arte e vida, e que se colocam de forma crítica na sociedade, buscam inspiração para suas atividades em movimentos artísticos que remontam a uma tradição que tem seu início no Surrealismo e no Dadaísmo.

Durante a primeira metade do século XX, existiu uma participação e coletivismo nas vanguardas artísticas determinadas pela participação revolucionária (dissolução da arte na vida), reformista (democratização da arte) ou didática (educando e alterando as percepções do público). Assim, no final dos anos 70 e início dos anos 80 começaram a surgir, principalmente em São Paulo, vários coletivos de artistas por conta da lenta e gradual abertura do regime militar. Grupos como 3Nós3, Viajou Sem Passaporte, GEXTU, Manga Rosa e TupiNãoDá buscavam uma forma de expressão artística diferente, pois acreditavam que exposições em sua forma tradicional seriam uma restrição da arte a uma determinada classe social. “Em 1978, os muros e as fachadas casas paulistanas já ostentavam inscrições de frases de duplo sentido, experimentos gráficos e desenhos, como também os stencils (máscaras) do trio de artistas Alex Vallauri, Carlos Matuck e Waldemar Zaidler.” (André Mesquita)

Partindo desses coletivos, existe um caminho que liga as experimentações formais na arte, os movimentos contraculturais da década de 60, até as práticas comunicacionais subversivas de coletivos, grupos de intervenção urbana e outras formas de ativismo midiático (relativo à mídia). Nos Estados Unidos, estas práticas mais recentes de ativismo midiático ganharam o nome de Culture Jamming (poderia ser traduzido como bagunça ou confusão da cultura), quando, em 1984, a banda Negativland assim nomeou diversas formas de sabotagem midiáticas. No final da década de 90, o termo era atribuído às ações anti-publicitárias, que ressurgiriam não mais no âmbito da arte ou da pratica lúdica, mas como ação política. Essas práticas de intervenção tinham duas vertentes de práticas de Culture Jamming, que são explicadas pelo estudioso alemão Cristoph Behnke: “Uma é a estratégia que reforça a coesão social de um grupo resistente dentro da estrutura vinda das técnicas publicitárias, e a outra é a estratégia que opera no espaço público, que intervêm no campo de forças das representações simbólicas, e questiona, com toda mensagem política que é comunicada, o quanto o uso privatizado da esfera pública pelo poder econômico é aceito sem questionamentos.”

Ainda durante a década de 90 começa, portanto, a se espalhar pelo mundo, inclusive chegando ao Brasil, a ideia de intervenção urbana como conhecemos hoje. Esse movimento foi crescendo e tomou grandes proporções algo que pode ser exemplificado pelo fato de São Paulo ser conhecida mundialmente pelos grafites existentes na cidade.

Só para fechar, aqui tem um vídeo no qual o Eduardo Srur fala um pouco mais sobre as intervenções hoje em dia. Tem umas informações muito legais, vale a pena conferir!

Fontes: 1, 2, 3, 4

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