Um pouco mais sobre intervenções urbanas

Oi! Encontramos um artigo muito interessante, ele trata principalmente do graffiti e da pichação, mas ele também possui vários elementos que podem se referir tanto às intervenções urbanas como um todo quanto ao nosso foco, a poesia. Como não vamos falar de todo o artigo, aqui tem o link para caso você queira ler inteiro.

De acordo com as autoras do texto, Janaina Rocha Furtado e Andréa Vieira Zanella, “A vida nas cidades é marcada pelos afazeres e transações econômico-comerciais nas quais as ruas, estradas e avenidas se apresentam como meios de conexão onde o vai-e-vem, de lá-pra-cá de uma e outra atividade, são intensos e constantes. Algumas vezes sobra tempo para os divertimentos e lazeres, frequentemente bastante custosos. Isto quando os citadinos, e não são todos, possuem o devido acesso aos equipamentos culturais ou de lazer e podem usufruir as produções culturais contemporâneas e bens coletivos nacionais e internacionais, locais ou globais. De modo geral, encontram-se imersos na característica e costumeira fragmentação urbana na qual alguns se reconhecem e outros não.

Embora possamos dizer que está cada vez mais dura, a cidade não está morta. Constitui-se espaço geográfico significativo de ação e possibilidade social de engajamento. A cidade é universo de relações, de encontros, vive, pulsa, e as relações que ali se delineiam vão muito além do desempenho de atividades prático-utilitárias, no interlúdio entre casa e trabalho, casa e escola. Do caos imagético, da fragmentação territorial, do acúmulo e superficialidade de signos, a cidade se ergue em suas pungentes possibilidades. Nela sensibilidades recriadas se inauguram e nela atuam vários grupos heterogêneos que criam, renovam, implicam-se e resistem ao instituído, buscando potencialidades outras de viver e reencantar o cotidiano. É preciso que se pergunte por esses grupos e se pergunte sobre os tantos processos criativos que têm a cidade como contexto e como lugar de atuação, de constituição de práticas e de redes coletivas de significação, que permitem ultrapassar e questionar o que se apresenta inventando uma outra cidade.”

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Esses espaços tem sido produzidos continuamente por meio das intervenções urbanas, seja por meio do graffiti ou dos lambe-lambes com inscrições poéticas. Eles estão presentes no mundo todo, tanto em cidades grandes quanto em cidades pequenas, o que mostra sua grande importância (e sua dimensão). lambes ​

“Para a Psicologia Histórico-Cultural, os processos psicológicos se constituem via relações sociais que, propriamente humanas, são mediadas pela linguagem, ou seja, por processos de significação plurais, contraditórios, polissêmicos que possibilitam sua constituição.” A intervenção urbana subjetiva os criadores, ao mesmo tempo que pode ser lida pelos transeuntes, que podem vir a se relacionar e subjetivar com esta também.

“Para os autores, a palavra resulta sempre da interação de sujeitos, devidamente localizados numa determinada situação social, e opera na realidade e nos sujeitos ali envolvidos. Os diversos sentidos nela implicados, por ser a palavra sempre polissêmica, só podem ser compreendidos, portanto, dialogicamente, dentro do contexto em que são proferidas.”

“Alguns pesquisadores (Abramo, 1994; Vianna, 1997) apontam também que o surgimento de muitos grupos juvenis urbanos, nas últimas décadas, articula-se fundamentalmente às dimensões ou redes de sociabilidade, somada à busca de certa inovação estética por parte desses grupos, como meio para a elaboração simbólica e crítica de seu tempo. Isto acontece à medida que estas manifestações se apresentam como uma forma de resposta à organização social que delimita e estrutura o universo juvenil. Muitos almejam uma via alternativa para a constituição de si, o que frequentemente ocorre nas atividades de lazer (Magnani, 1996), nas quais encontram espaços para tal manifestação.”

De acordo com um dos entrevistados, existe uma gíria que é “Ldrão”, que tem por trás um conceito de que o artista estaria roubando o muro, resgatando-o e entregando-o para todos como arte, o que é uma forma diferente de se entender as intervenções urbanas.

“A cidade é o lugar onde o público e o privado, o sujeito e a coletividade se imbricam, onde as condições, as forças potencializadoras das ações humanas se articulam. Segundo Milton Santos (1996), todo e qualquer espaço é uma manifestação socialmente plena da experiência humana e, sendo assim, a cidade não pode ser compreendida como espaço físico apenas, mas espaço de significação humana. Espaços nos quais os sujeitos interagem uns com os outros, com o meio e seus signos, construindo suas próprias maneiras de significar suas vivências e agir a partir delas. Ao resgatar os muros, ao reivindicar espaços de fala e de afirmação enquanto sujeitos que também habitam e vivenciam os espaços da cidade, estes sujeitos grafiteiros produzem novos sentidos do e no urbano, bem como ressignificam a si mesmos como sujeitos possíveis na cidade (…)” [Apesar do último período tratar exclusivamente do graffiti, todos os artistas que atuam no espaço urbano também possuem essas ações]

Em uma pequena conclusão, os autores mostram que “através das imagens [no nosso caso, das palavras], o graffiti propõe outra relação com o entorno urbano, questionando, a partir de um olhar estético, os territórios, as regulamentações do espaço e estrutura da cidade e das imagens que nela circulam, assim como os problemas coletivos subsistentes. Na heterogeneidade dos discursos visuais, no silêncio destas conversas urbanas, o graffiti se faz e se refaz na incerteza da permanência ou do apagamento, na duração do olhar que passa, que imagina, que significa o urbano.”

https://instagram.com/p/1ziYF1BJpG/?taken-by=kobrastreetart
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Lambe-lambes

Seguindo um pouco a linha desse post, viemos falar um pouco sobre os lambe-lambes, nos aprofundando cada vez mais no nosso recorte temático.

Olha a história ai (foi a mais breve que eu consegui encontrar):

Cartaz de J. Cherét, 1895. (http://historiadocartaz.weebly.com/origens.html)

“Os primeiros cartazes foram desenvolvidos ainda no século X, por meio de xilogravuras, obtidas através da impressão de matrizes de madeira pelos povos orientais. No Renascimento, o primeiro cartaz conhecido é de Saint-Flour, de 1454, feito em manuscrito e sem imagens. Somente no final do século XIX, a arte de reunir textos e ilustrações numa folha de papel alcançou projeção, ao ser propagada pelos mercadores europeus e executada pelas mãos talentosas de artistas plásticos da época. Por volta de 1860, em Paris, Jules Cherét desenvolveu o sistema de impressão de 3 a 4 cores. Seu estilo atingiu o auge em 1880 e foi adaptado por outros artistas como Pierre Bonnarde e Toulouse-Lautrec – precursor da arte publicitária. Já no século XIX, começo do século XX, o movimento Arts and Crafts, um dos estilos estéticos que iniciou o caminho do Design Moderno, inspirou vários artistas a criarem Cartazes que pregavam a liberdade estética e a ousadia criativa. Aspectos que se relacionavam com a 2ª Revolução Industrial e com os avanços tecnológicos da época. (…) Os artistas desenhavam cada elemento do Cartaz, incluindo a tipografia. No século XX, o cartaz teve um papel importante no Design Moderno. O Design Russo influenciou fortemente a evolução do cartaz europeu, estando intimamente relacionado à propaganda do governo soviético e a vanguardas artísticas, como o construtivismo, trazendo mensagens de patriotismo, igualdade e vitória. Até 1917, existia uma grande influência francesa nas artes gráficas comerciais russas, somente após essa data é que o estilo russo encontrou seu caminho próprio, atrelado a artistas ligados ao processo revolucionário. (…) Durante a Segunda Guerra Mundial, os Cartazes deixaram de anunciar produtos para promover os esforços de guerra, por meio do apelo ao recrutamento ou veiculação de informações. Os governos que encomendavam esses cartazes queriam mensagens diretas e eficazes. Por isso, assumiam o risco de contratar e dar liberdade a jovens designers modernistas. Nos anos 60 e 70, os cartazes passaram a ser desenhados para uma audiência limitada, sendo encarados e vendidos como obras de arte. Eram tempos efervescentes, em que surgiram vários movimentos de fundo político e social, o que acabou por influenciar de forma decisiva o Design Gráfico. Entre eles, podemos citar o movimento estudantil, o psicodelismo e o punk. A partir dos 70, a tecnologia deu aos designers muito mais controle sobre o tipo de letra e a reprodução da imagem. Nos dias atuais, poucos são os artistas gráficos cujas obras se destacam, quer qualitativamente ou em termos de inovação. O computador têm um papel cada vez mais importante na criação de cartazes e as combinações criativas entre fotografia, ilustração e trabalho tipográfico os transformou em veículos extremamente democráticos, que evoluem à velocidade da tecnologia digital.” (Fonte)

Hoje em dia, os lambe-lambes estão presentes em diversas cidades do mundo, sendo quase impossível falar de intervenções urbanas sem falar deles.

Achamos uma matéria do Green Peace sobre o assunto, então vamos falar um pouco dela, mas se você quiser ler tudo que está lá, o link é esse.

comum a2 - post cartaz
Lambe por Comum A2 (Foto: https://instagram.com/p/2izvgPx84I/?taken-by=comum_a2)

Primeiro de tudo, o que são lambe-lambes? “Um lambe-lambe é um cartaz com conteúdo artístico e/ou crítico colado em espaços públicos. É uma forma de intervenção criativa na sua cidade, com o poder de despertar as pessoas para reflexões que em geral não estão presentes no nosso dia a dia”. Ou seja, são uma forma colorida e expressiva que usam arte e poesia para expor ideias e/ou sentimentos. Se você não conseguiu imaginar muito bem o que estamos falando pode lembrar um pouco uma propaganda (tipo aquilo do “trago seu amor de volta em três dias”, que todo mundo já viu na rua), mas o conteúdo é bem diferente, o que é muito visível nas intervenções que vocês já viram em posts que nós fizemos aqui no blog, por exemplo da Camila, da Gabriela e do Thiago e da Carol.

Segunda coisa, que é muito importante: colar lambe-lambe não é crime. Todo cidadão tem o direito, garantido pela Constituição, de se manifestar livremente. Além disso, os lambes são uma forma de expressão totalmente pacífica. De maneira geral, as leis como a Lei Cidade Limpa (sobre a qual falamos aqui) não se referem a manifestações sem conteúdo comercial, são apenas para publicidade. É possível colar em lugares públicos, postes, lixeiras, etc, porém é necessário pedir permissão para colar em espaços privados, como muros e portões.

Para fazer a cola, pode ser usado polvilho, farinha de trigo ou algumas outras coisas. No entanto, não vamos explicar todo o processo para fazer a cola ou que tipo de pincéis você deveria usar, porque não é exatamente o foco aqui.

Esse é um documentário que estava disponível no site do Green Peace também, achamos que ele tem informações muito interessantes, falando, inclusive, com alguém que, por coincidência, foi tema de um post nosso, a Laura Guimarães.

Enfim, esperamos ter esclarecido um pouco mais sobre o assunto!

Intervenções Urbanas

Nós vivemos falando de intervenções urbanas, mas nos demos conta de que já exemplificamos muito as intervenções, mas nunca fizemos um post falando realmente delas. Então vamos falar um pouquinho do que são e como surgiram!

Intervenção urbana de Eduardo Srur. (Foto: http://super.abril.com.br/blogs/ideias-verdes/tag/eduardo-srur/)

Primeiramente, intervenção urbana é o termo utilizado para designar os movimentos artísticos relacionados às intervenções visuais realizadas em espaços públicos. Ela é voltada para uma experiência estética, buscando mudar a relação que se possui cotidianamente com a cidade, produzindo formas diferentes de se enxergar o espaço urbano.

“O que hoje chamamos de intervenção urbana evolve um pouco da intensa energia comunitária que floresceu nos anos de chumbo [período mais repressivo da ditadura militar no Brasil]. Os trabalhos dos artistas contemporâneos, porém, buscam uma religação afetiva com os espaços degradados ou abandonados da cidade, com o que foi expulso ou esquecido na afirmação dos novos centros. Por meio do uso de práticas que se confundem com as da sinalização urbana, da publicidade popular, dos movimentos de massa ou das tarefas cotidianas, esses artistas pretendem abrir na paisagem pequenas trilhas que permitam escoar e dissolver o insuportável peso de um presente cada vez mais opaco e complexo.” (Maria Angélica Melendi)

Intervenção por Banksy. (Foto: http://www.saopaulotimes.com.br/sp/banksy-famoso-por-ser-anonimo/)

“Houve um tempo em que o termo intervenção era privilégio legítimo de militares, estrategistas ou planejadores e o urbano adjetivava o futuro ainda longínquo para a maioria da população mundial. Se a intervenção urbana foi, no século XX, predominantemente heterônoma, uma ordem vinda de cima, a partir da segunda metade deste mesmo século, os artistas começaram a interceptar tal heteronomia e a apropriar-se da possibilidade de intervir no mundo real e na cultura, irreversivelmente urbanos. Neste curto intervalo histórico, diversas iniciativas artísticas realizadas fora dos museus e galerias, dos palcos e dos pedestais buscaram novas relações socioespaciais e consolidaram a idéia de intervenção urbana em dois rumos: como estratégia de transformação física (monumentos também heterônomos) ou como tática de uso da cidade e da cultura (interferências efêmeras, imagéticas, móveis, colaborativas). Atuando através de forças imprevistas, de conflitos de tradução e da expansão das noções e hierarquias tradicionais do espaço, tais práticas (a deriva, o minimalismo, a land art, o building cut, o happenning, o site-specific, etc.) desmontaram de uma vez por todas a ideia clássica de arte baseada no consenso e possibilitaram a emergência complexa e indelével da noção de público. E se hoje a expressão intervenção urbana soa como lugar comum até no mais remoto rincão sonhado pelos landartistas ­– quando o território está globalmente esquadrinhado pelos satélites, parcelado pelos interesses imobiliários e maculado pela latinha de Coca-Cola abandonada – o espaço público continua a ser uma das promessas não cumpridas da cidade. Público que, obviamente, não se refere apenas à ideia de audiência ou espectadores, mas a um conjunto de redes e espaços de participação e autonomia que conformam o território “de todos” na cidade, na diversidade dos seus aspectos sensíveis. Uma breve e provisória taxonomia do espaço público no contexto da arte atual delineia, em maior ou menor grau, o desejo – poético, político, coreográfico – de propor contribuições para futuros renovados que permitam que o senso de coletividade e a prática espacial crítica exerçam-se na cidade: (1) as experiências artísticas construídas sob a ideia do espaço público como mera localização testemunham o esvaziamento de suas redes territoriais, quando a cidade é utilizada apenas como lugar de exibição ou palco especial; (2) o espaço público entendido como processo e negociação retoma a esfera pública com seus conflitos e diversas vozes, tentando ver emergir discursos e possibilidades; (3) o espaço público como lugar de estudo corográfico tenta se aproximar das investigações geográficas e geopolíticas, repensando a arte através das experiências dos territórios de intolerância mundial; (4) o espaço público como prática de mapeamento performativo apresenta a ideia do mapa pessoal como escritura crítica de navegação da cidade; (5) o espaço público virtual lida com a emergência dos aparatos globais de medição, comunicação e monitoração do espaço, num alargamento redundante da esfera pública..” (Renata Marquez e Wellington Cançado)

Uma das intervenções do 3Nós3. (Foto: http://www.canalcontemporaneo.art.br/e-nformes.php?codigo=3423)

As intervenções urbanas que se propõem a extrapolar a experimentação estética numa união entre arte e vida, e que se colocam de forma crítica na sociedade, buscam inspiração para suas atividades em movimentos artísticos que remontam a uma tradição que tem seu início no Surrealismo e no Dadaísmo.

Durante a primeira metade do século XX, existiu uma participação e coletivismo nas vanguardas artísticas determinadas pela participação revolucionária (dissolução da arte na vida), reformista (democratização da arte) ou didática (educando e alterando as percepções do público). Assim, no final dos anos 70 e início dos anos 80 começaram a surgir, principalmente em São Paulo, vários coletivos de artistas por conta da lenta e gradual abertura do regime militar. Grupos como 3Nós3, Viajou Sem Passaporte, GEXTU, Manga Rosa e TupiNãoDá buscavam uma forma de expressão artística diferente, pois acreditavam que exposições em sua forma tradicional seriam uma restrição da arte a uma determinada classe social. “Em 1978, os muros e as fachadas casas paulistanas já ostentavam inscrições de frases de duplo sentido, experimentos gráficos e desenhos, como também os stencils (máscaras) do trio de artistas Alex Vallauri, Carlos Matuck e Waldemar Zaidler.” (André Mesquita)

Partindo desses coletivos, existe um caminho que liga as experimentações formais na arte, os movimentos contraculturais da década de 60, até as práticas comunicacionais subversivas de coletivos, grupos de intervenção urbana e outras formas de ativismo midiático (relativo à mídia). Nos Estados Unidos, estas práticas mais recentes de ativismo midiático ganharam o nome de Culture Jamming (poderia ser traduzido como bagunça ou confusão da cultura), quando, em 1984, a banda Negativland assim nomeou diversas formas de sabotagem midiáticas. No final da década de 90, o termo era atribuído às ações anti-publicitárias, que ressurgiriam não mais no âmbito da arte ou da pratica lúdica, mas como ação política. Essas práticas de intervenção tinham duas vertentes de práticas de Culture Jamming, que são explicadas pelo estudioso alemão Cristoph Behnke: “Uma é a estratégia que reforça a coesão social de um grupo resistente dentro da estrutura vinda das técnicas publicitárias, e a outra é a estratégia que opera no espaço público, que intervêm no campo de forças das representações simbólicas, e questiona, com toda mensagem política que é comunicada, o quanto o uso privatizado da esfera pública pelo poder econômico é aceito sem questionamentos.”

Ainda durante a década de 90 começa, portanto, a se espalhar pelo mundo, inclusive chegando ao Brasil, a ideia de intervenção urbana como conhecemos hoje. Esse movimento foi crescendo e tomou grandes proporções algo que pode ser exemplificado pelo fato de São Paulo ser conhecida mundialmente pelos grafites existentes na cidade.

Só para fechar, aqui tem um vídeo no qual o Eduardo Srur fala um pouco mais sobre as intervenções hoje em dia. Tem umas informações muito legais, vale a pena conferir!

Fontes: 1, 2, 3, 4